A religião em Superman

Recentemente eu comecei a leitura de um livro que foi lançado também há pouco tempo. A ficção de Deus (2014) foi escrito por Gustavo Bernardo, pesquisador carioca doutor em literatura comparada e estudioso da obra do pensador tcheco-brasileiro Vilém Flusser. Mas antes de publicar A ficção de deus, Bernardo já rascunhou suas reflexões em torno da fé e do conceito “Deus” um ano antes, quando escreveu um texto que leva o mesmo título.

Enfim, por acaso acabei me deparando com um relato do autor sobre suas leituras das histórias em quadrinhos do Super-Homem e, por conta disso, ele é capaz de fazer uma conexão entre o personagem e o aspecto religioso presente na concepção do herói. Apesar de hoje considerarmos histórias de super-herói um gênero à parte, como vocês verão no trecho abaixo, o conto que deu origem ao Super-Homem foi publicado justamente no terceiro volume da Science Fiction: The Advance Guard of Future Civilization, uma revista criada por um dos criadores do personagem, Joe Shuster, aos 18 anos. Isto é, a publicação que deu origem ao herói era focada no gênero da ficção científica. Mas, sem mais delongas, vamos ao texto:

De todo modo, não apenas Deus é transcendente, onisciente e onipotente ao mesmo tempo. Suponho que todos os grandes personagens da ficção conseguem a mesma proeza: todos eles transcendem seus autores e os contextos de sua autoria, todos eles conversam com todos os leitores do mundo ao longo dos anos e dos séculos, todos eles enfim podem ser e não ser ao mesmo tempo.

Fecho o capítulo da dúvida feroz com um único exemplo, justamente o de um dos personagens mais populares da ficção contemporânea. Esse personagem se confunde deliberadamente com a ficção de Deus. Trata-se de Kal-El, um alienígena oriundo do planeta Krypton que é jogado na Terra ainda bebê. No suposto idioma kryptoniano, seu nome significa “O Filho das Estrelas”. Na Terra, ele toma o nome americano de Clark Kent, mas é mais conhecido como Superman. O Super-Homem, como o chamamos por aqui, chega perto da onisciência graças à sua visão de raio-X e à sua super-audição; da onipotência, graças à sua super-força; da onipresença, graças ao seu poder de voo e à super-velocidade; da imortalidade, graças àsua invulnerabilidade, limitada apenas pela kryptonita (seu calcanhar mitológico de Aquiles); da transcendência, graças à sua origem alienígena.

O roteirista Joe Shuster e o desenhista Jerry Siegel, ambos judeus, o criaram inicialmente em 1933, num conto publicado no número 3 da revista Science Fiction. O conto se chamava “The Rein of the Super-Man“, em português “O Reino do Super-Homem”. No conto o personagem era um super-vilão, uma espécie de proto Lex Luthor. Tratava-se de um Anti-Cristo, como aponta Alan Barkman no artigo “Superman: from Anti-Christ to Christ-Type“.

26-08-2011-12-50-37-PM

Em 1938, os mesmo artistas invertem a sua própria ideia e desenham a história do Superman, agora sem o hífen em inglês, publicando-a no número 1 da revista Action Comics. Seu Superman torna-se o protótipo dos super-heróis modernos. Eles pretendem combater pela imaginação o Super-Homem nazista – em alemão, o Übermensch.

Indicar a descendência judaica dos criadores do personagem é importante para explicar tanto a motivação original quanto as referências bíblicas iniciais. The Man of Steel, o último filme do Super-Homem, dirigido por Zack Snyder, recupera essas referências. A condição de filho de Jor-El, em Krypton, e de filho adotivo de Jonathan e Martha Kent, na Terra, que o encontram numa cápsula espacial, reforça a similaridade do personagem tanto com Jesus Cristo quanto com Moisés.

A partir da Segunda Guerra Mundial e do horror combinado de Auschwitz e Hiroshima, o Super-Homem se torna uma espécie de Messias em quadrinhos. Enquanto Super-Homem, o personagem é quase um deus. A sua moralidade superior reforça essa proximidade (apesar de companheiros como Batman considerarem-no, justamente por causa dessa moralidade, um chato de cuecas). Na identidade secreta de Clark Kent, porém, o personagem se mostra frágil como um ser humano, além de se revelar particularmente inábil com as muhleres. Dessa  maneira, ele se assemelha tanto ao pai quanto ao filho, isto é: tanto a Deus quanto a Cristo. Super-Homem é mais poderoso do que qualquer um, mas não usa seu poder para dominar ou destruir. Super-Homem ama os fracos porque, como Clark Kent, ele também é fraco.

Nas primeiras histórias, as referências cristãs eram ainda mais óbvias. A mãe adotiva de Clark Kent chamava-se Mary, isto é, Maria. Apenas mais tarde os artistas preferiram chamá-la como Martha Kent. Desde o começo o pai adotivo de Clark chama-se Jonathan Joseph Kent, em clara alusão tanto a São José, pai adotivo de Jesus, quanto a Jônatas, o filho do primeiro rei de Israel, Saul. “Clark”, por sua vez, é um antigo nome inglês que significa “clérico” ou “padre”, enquanto Kent é uma variante do hebraico “kana“, que significa “eu achei um filho”. O nome “Clark Kent” portanto significa “eu achei um filho que é padre”, ou seja: que também é o Pai.

Já o nome do planeta natal do Super-Homem, Krypton, remete à palavra grega kryptos, que quer dizer “escondido” e de onde derivam termos como “criptografia”. O Messias precisa ser revelado porque deve se encontrar escondido, a saber, criptografado pelas lendas que o constroem e à sua necessidade. O nome do pai verdadeiro do super-herói, Jor-El, remete à palavra hebraica para Deus, “El“, sugerindo, como aponta Barkman, “uma forte conexão, tanto mítica quanto moralmente, entre Deus e o Super-Homem” – no original “a strong connection, both mythically and  morally, between God and Superman“. Nos quadrinhos e nos filmes se apresenta como o Deus que dá aos homens de presente seu único filho, para conduzi-los ao supremo bem. Na Terra Kal-El se torna Clark Kent que se torna o Super-Homem graças à luz amarela do sol, lembrando o Deus-Sol que inaugura as principais mitologias e as mais antigas religiões. Clark assume a identidade e o uniforme de Super-Homem com a idade de 30 anos, assim como ninguém menos do que Jesus Cristo.

Numa emblemática história dos quadrinhos de 1992, o Super-Homem enfrenta o que pode ser seu último inimigo, Doomsday – em português, o Apocalipse! Precisa ser mais claro? Nessa história, o Super-Homem derrota o Apocalipse, salvando a humanidade, mas morre em consequência dos ferimentos nos braços de Lois Lane, numa imagem que lembra a Pietà de Michelangelo. Por mais que todos soubéssemos que o Super-Homem ressuscitaria, não fosse o super-herói dos super-heróis e ainda a ressurreição em quadrinhos do próprio Jesus Cristo, sua morte arrancou lágrimas das crianças de todas as idades que folheavam aquelas páginas coloridas – inclusive desta criança que vos escreve.

death-of-superman

O Super-Homem de fato ressuscitou, dessa maneira ressuscitando novamente a esperança do mundo. Por mais que os autores da literatura cult, digamos assim, não gostem da comparação, forçoso dizer que o Super-Homem espelha as possibilidades de poder de todos os personagens ficcionais da história, mostrando como elas sempre amplificam as possibilidades do ser humano.

O Super-Homem é sem dúvida um super-homem, assim como… Deus. Por essa perspectiva inusitada, a ficção de Deus poderia ser o disfarce genial de uma deusa poderosa chamada, digamos…

…Ficção?

(p.76-79)

Sobre

Ponto Ômega tem como proposta reunir fãs de ficção científica de diferentes áreas do conhecimento para discutir o gênero em seus diferentes formatos: literatura, cinema, animação, quadrinhos, jogos etc. Inicialmente, o blog se dedicará ao formato podcast para a exposição das ideias que serão debatidas em conversas mediadas por Lidia Zuin, jornalista, mestre em semiótica e autora de contos de ficção científica cyberpunk, além de uma monografia sobre Serial Experiments Lain.

No futuro, ainda pretende-se criar uma fanzine, mas por enquanto os podcasts serão publicados sem intervalos precisos.