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Omegacast 001 – Paradoxo de Fermi, astronomia e ficção científica

Primeiro episódio do Omegacast, fazendo um teste nas ferramentas de gravação que serão usadas a partir de agora. Aparentemente, usar o áudio do Hangouts direto pode ser meio ruim por conta da diferença de conexão de cada um, então peço desculpas pela dificuldade em ouvir alguns trechos do podcast.

Nesse episódio, tratamos do conceito do Paradoxo de Fermi e como ele se localiza dentro da academia e da ficção científica. Os convidados são os estudantes Lucas Gonsalez dos Santos e André Vitorelli. Read More

A religião em Superman

Recentemente eu comecei a leitura de um livro que foi lançado também há pouco tempo. A ficção de Deus (2014) foi escrito por Gustavo Bernardo, pesquisador carioca doutor em literatura comparada e estudioso da obra do pensador tcheco-brasileiro Vilém Flusser. Mas antes de publicar A ficção de deus, Bernardo já rascunhou suas reflexões em torno da fé e do conceito “Deus” um ano antes, quando escreveu um texto que leva o mesmo título.

Enfim, por acaso acabei me deparando com um relato do autor sobre suas leituras das histórias em quadrinhos do Super-Homem e, por conta disso, ele é capaz de fazer uma conexão entre o personagem e o aspecto religioso presente na concepção do herói. Apesar de hoje considerarmos histórias de super-herói um gênero à parte, como vocês verão no trecho abaixo, o conto que deu origem ao Super-Homem foi publicado justamente no terceiro volume da Science Fiction: The Advance Guard of Future Civilization, uma revista criada por um dos criadores do personagem, Joe Shuster, aos 18 anos. Isto é, a publicação que deu origem ao herói era focada no gênero da ficção científica. Mas, sem mais delongas, vamos ao texto:

De todo modo, não apenas Deus é transcendente, onisciente e onipotente ao mesmo tempo. Suponho que todos os grandes personagens da ficção conseguem a mesma proeza: todos eles transcendem seus autores e os contextos de sua autoria, todos eles conversam com todos os leitores do mundo ao longo dos anos e dos séculos, todos eles enfim podem ser e não ser ao mesmo tempo.

Fecho o capítulo da dúvida feroz com um único exemplo, justamente o de um dos personagens mais populares da ficção contemporânea. Esse personagem se confunde deliberadamente com a ficção de Deus. Trata-se de Kal-El, um alienígena oriundo do planeta Krypton que é jogado na Terra ainda bebê. No suposto idioma kryptoniano, seu nome significa “O Filho das Estrelas”. Na Terra, ele toma o nome americano de Clark Kent, mas é mais conhecido como Superman. O Super-Homem, como o chamamos por aqui, chega perto da onisciência graças à sua visão de raio-X e à sua super-audição; da onipotência, graças à sua super-força; da onipresença, graças ao seu poder de voo e à super-velocidade; da imortalidade, graças àsua invulnerabilidade, limitada apenas pela kryptonita (seu calcanhar mitológico de Aquiles); da transcendência, graças à sua origem alienígena.

O roteirista Joe Shuster e o desenhista Jerry Siegel, ambos judeus, o criaram inicialmente em 1933, num conto publicado no número 3 da revista Science Fiction. O conto se chamava “The Rein of the Super-Man“, em português “O Reino do Super-Homem”. No conto o personagem era um super-vilão, uma espécie de proto Lex Luthor. Tratava-se de um Anti-Cristo, como aponta Alan Barkman no artigo “Superman: from Anti-Christ to Christ-Type“.

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Em 1938, os mesmo artistas invertem a sua própria ideia e desenham a história do Superman, agora sem o hífen em inglês, publicando-a no número 1 da revista Action Comics. Seu Superman torna-se o protótipo dos super-heróis modernos. Eles pretendem combater pela imaginação o Super-Homem nazista – em alemão, o Übermensch.

Indicar a descendência judaica dos criadores do personagem é importante para explicar tanto a motivação original quanto as referências bíblicas iniciais. The Man of Steel, o último filme do Super-Homem, dirigido por Zack Snyder, recupera essas referências. A condição de filho de Jor-El, em Krypton, e de filho adotivo de Jonathan e Martha Kent, na Terra, que o encontram numa cápsula espacial, reforça a similaridade do personagem tanto com Jesus Cristo quanto com Moisés.

A partir da Segunda Guerra Mundial e do horror combinado de Auschwitz e Hiroshima, o Super-Homem se torna uma espécie de Messias em quadrinhos. Enquanto Super-Homem, o personagem é quase um deus. A sua moralidade superior reforça essa proximidade (apesar de companheiros como Batman considerarem-no, justamente por causa dessa moralidade, um chato de cuecas). Na identidade secreta de Clark Kent, porém, o personagem se mostra frágil como um ser humano, além de se revelar particularmente inábil com as muhleres. Dessa  maneira, ele se assemelha tanto ao pai quanto ao filho, isto é: tanto a Deus quanto a Cristo. Super-Homem é mais poderoso do que qualquer um, mas não usa seu poder para dominar ou destruir. Super-Homem ama os fracos porque, como Clark Kent, ele também é fraco.

Nas primeiras histórias, as referências cristãs eram ainda mais óbvias. A mãe adotiva de Clark Kent chamava-se Mary, isto é, Maria. Apenas mais tarde os artistas preferiram chamá-la como Martha Kent. Desde o começo o pai adotivo de Clark chama-se Jonathan Joseph Kent, em clara alusão tanto a São José, pai adotivo de Jesus, quanto a Jônatas, o filho do primeiro rei de Israel, Saul. “Clark”, por sua vez, é um antigo nome inglês que significa “clérico” ou “padre”, enquanto Kent é uma variante do hebraico “kana“, que significa “eu achei um filho”. O nome “Clark Kent” portanto significa “eu achei um filho que é padre”, ou seja: que também é o Pai.

Já o nome do planeta natal do Super-Homem, Krypton, remete à palavra grega kryptos, que quer dizer “escondido” e de onde derivam termos como “criptografia”. O Messias precisa ser revelado porque deve se encontrar escondido, a saber, criptografado pelas lendas que o constroem e à sua necessidade. O nome do pai verdadeiro do super-herói, Jor-El, remete à palavra hebraica para Deus, “El“, sugerindo, como aponta Barkman, “uma forte conexão, tanto mítica quanto moralmente, entre Deus e o Super-Homem” – no original “a strong connection, both mythically and  morally, between God and Superman“. Nos quadrinhos e nos filmes se apresenta como o Deus que dá aos homens de presente seu único filho, para conduzi-los ao supremo bem. Na Terra Kal-El se torna Clark Kent que se torna o Super-Homem graças à luz amarela do sol, lembrando o Deus-Sol que inaugura as principais mitologias e as mais antigas religiões. Clark assume a identidade e o uniforme de Super-Homem com a idade de 30 anos, assim como ninguém menos do que Jesus Cristo.

Numa emblemática história dos quadrinhos de 1992, o Super-Homem enfrenta o que pode ser seu último inimigo, Doomsday – em português, o Apocalipse! Precisa ser mais claro? Nessa história, o Super-Homem derrota o Apocalipse, salvando a humanidade, mas morre em consequência dos ferimentos nos braços de Lois Lane, numa imagem que lembra a Pietà de Michelangelo. Por mais que todos soubéssemos que o Super-Homem ressuscitaria, não fosse o super-herói dos super-heróis e ainda a ressurreição em quadrinhos do próprio Jesus Cristo, sua morte arrancou lágrimas das crianças de todas as idades que folheavam aquelas páginas coloridas – inclusive desta criança que vos escreve.

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O Super-Homem de fato ressuscitou, dessa maneira ressuscitando novamente a esperança do mundo. Por mais que os autores da literatura cult, digamos assim, não gostem da comparação, forçoso dizer que o Super-Homem espelha as possibilidades de poder de todos os personagens ficcionais da história, mostrando como elas sempre amplificam as possibilidades do ser humano.

O Super-Homem é sem dúvida um super-homem, assim como… Deus. Por essa perspectiva inusitada, a ficção de Deus poderia ser o disfarce genial de uma deusa poderosa chamada, digamos…

…Ficção?

(p.76-79)

Sobre

Ponto Ômega tem como proposta reunir fãs de ficção científica de diferentes áreas do conhecimento para discutir o gênero em seus diferentes formatos: literatura, cinema, animação, quadrinhos, jogos etc. Inicialmente, o blog se dedicará ao formato podcast para a exposição das ideias que serão debatidas em conversas mediadas por Lidia Zuin, jornalista, mestre em semiótica e autora de contos de ficção científica cyberpunk, além de uma monografia sobre Serial Experiments Lain.

No futuro, ainda pretende-se criar uma fanzine, mas por enquanto os podcasts serão publicados sem intervalos precisos.